segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O tocador de latas - Brasília dos anos 80

Esse músico de rua tinha uma intuição incrível. O vi tocar várias vezes alí nas imediações do Conic e da Rodoviária do Plano Piloto. O timbre um tanto extravagante dessas latas não chegava a ser um problema diante do talento dele para reproduzir melodias. O personagem estava esquecido, mas alguém colocou nas redes essa fotaça, cuja autoria desconheço. Se alguém soubee, favor informar para que possamos dar o crédito.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Heleno – Mais um gol perdido pelo cinema brasileiro



A biografia-ficção ‘Heleno, o Príncipe Maldito’ é uma daquelas boas ideias que têm potencial apenas superficialmente aproveitado pelo cinema brasileiro, sempre às voltas com problemas de roteiro, ritmo, diálogos e montagem.
O personagem e sua história são muito interessantes, mas o filme, de R$ 8,5 milhões, não nos permite mergulhar junto com o astro do Botafogo na sua tragédia pessoal, contraponto de uma carreira curta e tumultuada, mas em grande parte gloriosa.
Apesar de algumas cenas fortes, a película nos mantém à distância a maior parte do tempo, embora não por intenção dos realizadores, mas por inabilidade mesmo. Privados do auto-engano a que chamamos de suspensão temporária da verdade, nem a incrível transformação de Rodrigo Santoro no Heleno decadente nos põe dentro do filme, deixando a suspeita de que o diretor igualmente ficou de fora. Talvez alguém menos conhecido nos livrasse da constatação periódica de que estamos vendo o nosso premiado ator - e não o dândi controvertido da era anterior a Pelé. A montagem coopera para nos distanciar emocionalmente da história, já que as idas e vindas roubam muito do suspense, ainda que tratemos de fatos de conhecimento público.
O efeito pretendido com a escolha do preto e branco até ajuda a criar o clima de volta ao passado, e funciona bem como metalinguagem, já que o trecho mais importante da trajetória de Heleno se desenvolveu no alvinegro de General Severiano. Ainda assim, é pouco para um filme que pretende nos apresentar a vida daquele que é considerado o primeiro craque-problema do futebol brasileiro.
Falta um pano de fundo, informações sobre o ambiente familiar de Heleno, e o que ocorreu até o jogador, galã e fumante compulsivo, ser flagrado pelas câmeras do diretor José Henrique Fonseca em cenas de amor com belas mulheres e lenços empapados de éter. Ele então já apresentava os primeiros sintomas da sífilis que, na vida real, o mataria em 1959.
Para não deixar o espectador totalmente perdido, há um telefonema da mãe cobrando a escolha de “uma boa esposa” e a lembrança de uma canção de ninar. Essa recordação está, aliás, sujeita a duas interpretações cruciais: anteciparia o destino do filho ou fundaria seu caráter. É nesse ponto que o roteiro, ou sua execução, embolam o meio de campo, ao cruzar perigosamente a linha entre realidade e ficção.
Heleno, o personagem, relembra que o pai costumava embalá-lo ao som de Nature Boy, composta por Eden Ahbez e publicada em 1947. Teria sido um achado, mas a saída para explicar o explosivo temperamento do biografado falha quando nos damos conta de que o ídolo nasceu em 1920. Assim, provavelmente foi ninado até os cinco, seis anos. Não há contemporaneidade alguma entre a infância de Heleno e o surgimento da canção – até para justificar uma liberdade poética.
Além disso, o recurso mostra-se frágil porque a música irrompe de forma descontextualizada , como uma senha para iniciados. É um desses cacos tão ao gosto de cineastas ávidos por firulas e pouco dispostos ao que é básico para um resultado convincente entre as quatro linhas da tela de projeção.
Mesmo tendo sido gravada por Caetano Veloso no álbum Totalmente Demais Ao Vivo, e numa versão em Português por Ney Matogrosso, Nature Boy não é exatamente conhecida de um público mais amplo, que teria de entender a menção a um ‘strange, enchanted boy’ (rapaz estranho e encantador).
O que parece é que o diretor buscou identificar o caráter autêntico do personagem da música à bravura indômita do jogador. Ocorre que o nature boy da canção é tímido, sossegado e prega como valor essencial da vida o dar e receber amor. Heleno era um ególatra agressivo e buscava, na visão expressa pelo roteiro, apenas receber amor. O máximo que dava era prazer sexual.
A canção é utilizada inclusive como o mote de uma entrevista subhollywoodiana, que não se sabe se ocorreu de verdade, na qual o jogador fala pouco do esporte que o notabilizara, e sim de suas extravagâncias, pedindo ao final para cantar ele próprio a música. Essa sequência tem ainda outra derrapagem forte, provocada pela locução pouco convincente do entrevistador, que não sustenta a emissão gutural típica dos anos 40/50.
Outra fraqueza do filme é percorrer os descaminhos de Heleno por um submundo emocional de aventuras amorosas e consumo de drogas, tangenciando a carreira futebolística, e desta omitindo informações importantes. Restam aquelas breves cenas de jogos e treinos, que não dão a mais pálida ideia do que transformou Heleno em personagem de um filme milionário. Sem o brilhantismo e a genialidade em campo, ele seria mais um playboy flanando pela praias do Rio.
É claro que enveredar pela degradação moral e física do ídolo evitou o complicado, mas necessário, trabalho de pesquisa e produção na seara do futebol. A saída? Inflar o filme com cenas de um viciado, relegando seu gênio como jogador – quem sabe a única virtude de Heleno – praticamente a meras afirmações no correr dos diálogos.
Em suma, José Henrique Fonseca teve uma boa oportunidade para marcar, mas chutou na trave.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O Globezerro de Ouro e outras manipulações


“Oh, la mato y aparece una mayor” (Sueño com serpientes – Silvio Rodriguez)


Estamos numa armadilha, como de resto os seres humanos sempre estiveram. Nunca houve uma época de harmonia e segurança. Atualmente, enquanto buscamos nos beneficiar das conquistas da tecnologia digital, uma série de questões éticas nos aflige.

O importante é deixar claro que não há inocência em nossos atos. Isso talvez nos ajude a lidar melhor com a situação.


Nesta semana, quando de um momento para o outro as atenções dos internautas mudaram repentinamente do abuso sexual no Big Brother para o golpe publicitário da 'Luiza do Canadá', ficou patente a nossa fragilidade psicossocial, o que foi confirmado pela escassa discussão em torno da própria mudança do tema líder de audiência.


O caso do Big Brother, tendo ou não tendo havido estupro, era grave demais para ceder lugar a uma corrente ou onda sobre assunto absolutamente insosso, embora eivado de interesses econômicos e outros menos visíveis.


A princípio, os parceiros na publicidade de um empreendimento imobiliário utilizaram as ferramentas para iniciar ou potencializar o sucesso do slogan que depois ganhou o país e o mundo.


A partir daí, como uma 'brincadeira inocente' todo mundo quis entrar no jogo e pegar carona na fama instantânea que a menção ao slogan propiciaria, postando cada a um a seu modo algo relacionado. A coisa saiu até do terreno virtual e alcançou as mesas de botecos, as rodas de cafezinho e shows de artistas consagrados como Lenine.


Excetuando o aspecto meramente comercial dos principais envolvidos na jogada publicitária, houve no episódio, acredito, um movimento de alívio psíquico inconsciente provocado pelo choque do Big Brother. Quase como que num grande acordo tácito todos resolveram afastar aquele incômodo de perceber, além da ocorrência de um abuso, consentido ou não, que há 12 anos a sociedade brasileira compactua com um dos conteúdos mais imbecilizantes e eticamente inaceitáveis da TV/internet.


Luíza do Canadá, com seu rostinho sorridente de filhinha-de-papai-no-intercâmbio, passou um bálsamo em nossa grande ferida moral. Ah! Que refrescante sabor de menta!


Não por acaso, a Globo fez um movimento rápido e levou a moça para os estúdios do Jornal Hoje em São Paulo, onde ela foi aplaudida de pé pelos jornalistas da emissora (!!!!!) e entrevistada pelo bonachão Evaristo, que dias antes protagonizara outra corrente de postagens por causa de uma brincadeira com surrado trocadilho “uma-mão”.


Desde então, a emissora evita dar mais do que esfarrapadas explicações - no sentido de que o estupro foi negado por e que Monique 'consentiu' nas carícias embaixo do edredom. De qualquer maneira, Daniel foi “expulso por comportamento inadequado”. Ora se o leito e o clima foi providenciado pela produção do Big Brother e atitude dos dois foi saudada pelo próprio apresentador do programa, Pedro Bial, com a frase “o amor é lindo”, então por que Daniel foi expulso?


Do espetáculo grotesco, fez parte também a divulgação pelo Jornal Nacional das providências da polícia para investigar o caso, o que incluiu o recolhimento de roupas íntimas para análise de fluídos, secreções, etc...


Não convenceu igualmente a alegação da Globo de que as imagens do abuso só foram veiculadas para os assinantes do serviço de transmissão paga e, na sequência, por outras emissoras. Não desconsiderando que aí houve também diversos tipos de aproveitamento por parte das concorrentes, o fato é que a Globo não pode esconder que as imagens pagas do Big Brother não ficam restritas, uma vez que existem muitos sites de compartilhamento como o YouTube para ofertar de graça o que a Globo vende a seus assinantes. E que isso é muito interessante para a Globo como propaganda do Big Brother.


A verdade é que estamos TODOS envolvidos num grande esquema de manipulação de informações, ideias, conceitos. Alguns com mais honestidade de propósito que outros, mas de toda maneira não há como alguém reivindicar para ninguém uma imagem de pureza.


Isso não quer dizer que devemos aceitar que “a internet é isso mesmo”, ou que, superados os aspectos formais da velha cultura vigente até a Segunda Guerra Mundial, qualquer comportamento pode ser aceitável, desde que dê dinheiro.

O falso moralismo da TV Record, ao criticar as duas ondas (BBB e Luiza do Canadá), evidencia o quanto estamos sujeitos a inverdades, uma vez que a emissora está apoiada em um dos maiores negócios de manipulação, no caso religiosa, do planeta.

A armadilha está aí e lembra outra muito antiga, a do bezerro de ouro dos escritos bíblicos, ainda que alguém possa me alertar para o fato de que a troca de falsos ídolos por um deus único foi apenas uma conveniente manobra dos poderosos de então.


Quando a razão dificulta o nosso trânsito pelo espinheiro das ideias, dos fatos e dos valores, a poesia pode às vezes ajudar. Como é o caso daqueles versos de Silvio Rodriguez, de uma Cuba também em armadilha, citados na epígrafe. Desculpem-me se não fui rápido, como prometi:


Sueño Con Serpientes

Hay hombres que luchan un día

Y son buenos.

Hay otros que luchan un año

Y son mejores.

Hay quienes luchan muchos años

Y son muy buenos.

Pero hay los que luchan toda la vida:

Esos son los imprescindibles.

Bertolt brecht

Sueño con serpientes, con serpientes de mar,

Con cierto mar, ay, de serpientes sueño yo.

Largas, transparentes, y en sus barrigas llevan

Lo que puedan arrebatarle al amor.

Oh, la mato y aparece una mayor.

Oh, con mucho más infierno en digestión.

No quepo en su boca, me trata de tragar

Pero se atora con un trébol de mi sien.

Creo que está loca; le doy de masticar

Una paloma y la enveneno de mi bien.

Ésta al fin me engulle, y mientras por su esófago

Paseo, voy pensando en qué vendrá.

Pero se destruye cuando llego a su estómago

Y planteo con un verso una verdad.


Sonho Com Serpentes

Há homens que lutam um dia

E sao bons.

Há outros que lutam um ano

E sao melhores

Há aqueles que lutam muitos anos

E são muito bons.

Porém há os que lutam toda a vida

Esses são os imprescindíveis

Bertolt brecht

Eu sonho com serpentes, com as serpentes do mar

Com certo mar, oh, de serpentes sonho eu

Grandes, transparentes e em suas barrigas carregam

O que pode acabar com o amor

Ah, eu a mato mas aparece uma maior

Oh, com mais voracidade em digerir

Não caibo em sua boca, logo ela se encarrega de me engolir.

Mas se engasga com meu trevo da sorte

Eu acho que ela está louca: lhe dou a mastigar

Uma pomba da paz e a enveneno com o que há de bom em mim.

Essa enfim me engole, e entro por seu esôfago,

Vou passando, vou pensando no que acontecerá

Mas ela se destrói quando chego ao seu estômago

E planto com um verso uma verdade

quarta-feira, 16 de março de 2011

A vida dura dos políticos na Suécia

Não há mágicas no caminho do desenvolvimento. Vejam no vídeo
video

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Sobre os 'desastres naturais': Ocupação urbana desordenada começou no período colonial


Há algo de extremamente poético na silhueta das cidades brasileiras, mas que está entre as causas estruturais dos desastres verificados ultimamente em muitas de nossas áreas urbanas. O exemplo mais recente é o da região serrana do Rio. Esse elemento de beleza decorre justamente da forma como a maioria das cidades surgiram e se desenvolveram desde os tempos coloniais: acompanhando as linhas do relevo e com pouco ou nenhum planejamento.

Leia mais em: http://www.senado.gov.br/noticias/verNoticia.aspx?codNoticia=106743&codAplicativo=2

sábado, 6 de março de 2010

Sobre ego e poder


A propósito da minha já batida afirmação de que a vida humana gira em torno de poder – ainda que talvez isso fosse condenável – recebi de duas amigas respostas diferentes. A primeira me disse:

“Creio que um dos maiores questionamentos do homem é... Qual o sentido da vida?
O poder, bem como o capital, fornecem a falsa sensação de sentido e por isso tantas vidas humanas giram em torno deles...”

E completou, comentando minha afirmação poética de que “mesmo a mais ingênua das flores busca impressionar com suas cores e perfumes, em busca de um lugar na natureza”:

“Bonita a visão da ingênua flor que impressiona.. cada um tem o seu lugar ao sol.... já essas "capacidades" políticas tem lugar ao sol e à sombra.. rs..”



Da outra amiga recebi uma carinhosa reprimenda e um trecho de um texto de Eckart Tolle:

“Para sobreviver, o ego precisa de uma grande quantidade de atenção. Ele é viciado em poder, reconhecimento e conflito e se ocupa de comparar a si mesmo com outros egos. Ele se vê separado dos outros e do mundo. Pensa em termos de “melhor que”, “menos que” e “maior que” e vive pela graça do ataque e defesa. Tolle diz: “Os egos diferem apenas no exterior. No fundo, são todos iguais. Vivem na identificação e separação. Todo ego luta continuamente para sobreviver, tentando se proteger e se expandir. Como quer que o ego se manifeste, a força motriz oculta por trás dele é sempre a mesma: a necessidade de se diferenciar, de ser especial, de ser o patrão; a necessidade de poder, de atenção, de mais. E, é claro, a necessidade de uma sensação de separação, isto é, de oposição, de inimigos.”

À primeira repliquei:

“Ainda bem que você aspeou "capacidades" porque o sentido da palavra era justamente irônico. Todos os dias vemos tais capacidades por um fio.

Essa discussão me lembrou aquele desabafo de Vinícius de Moraes, que dizia lamentar ter um dia deixado a Gávea, o bairro onde nascera, e não ser apenas "príncipe do meu próprio reino", nas palavras dele.

O nosso extraordinário poeta falou, a meu ver, com a ingenuidade da flor, porque a vida o empurrou da Gávea para Botafogo, de Botafogo para Chelsea (em Londres), de volta para o Rio em bairros que desconheço, em seguida para Beverly Hills (Los Angeles) e de volta para outros bairros do Rio, principalmente Ipanema, ao sabor dos amores, dos casamentos, das canções e dos porres. Vinícius morou ainda em Itapoã (Salvador) e , se não me engano, em algum barrio de Buenos Aires. Não conseguiu voltar para a Gávea, até onde eu sei, e nem ser príncipe de seu próprio reino.

Ora, ele, é claro, intuía que o maior poder está em nos livrarmos da tentação das lutas pelo grande poder e termos a satisfação de dominarmos aspectos da nossa vida que permitam o surgimento de nossas melhores, mais plenas e mais profundas capacidades. No entanto, lutamos pela cidade, pelo mundo, e quando olhamos em volta, estamos circunscritos a bairros físicos e de outras naturezas, mas nunca o bairro original, para quem ousou pôr os pés no mundo.

Os percalços do poetinha tinham outro ingrediente que, a meu ver, permeia igualmente a luta pelo poder: seu desejo de voltar ao seio materno (de onde jamais deveria ter saído???). Desafiados pela hostilidade do ambiente e pela quantidade enorme de trabalho a ser feito em prol da civilização, nós debatemos entre a nostalgia de um conforto impossível e o dilaceramento de tudo que nos possa impedir o sonho de recuperá-lo. Poder, poder, poder. Ao recusar a luta política formal (traduzida apenas em manifestação artística), Vinícius recuperou o sonho do seio materno na ilusão/desilusão momentânea de cada amor, o que acabou beneficiando o nosso repertório e a nossa identidade cultural.

Sem querer projetar nostalgias para o futuro, ainda demorará até que possamos ser apenas flores ao sol. E isso implicará, sem dúvida alguma, e muito infelizmente, luta política.”


À segunda e em alusão específica ao texto de Tolle, respondi:

“Perfeito.

A coisa [o ego] se desenvolveu assim mesmo e penso que foi de propósito - não como uma anomalia.

A anomalia, a meu ver é o egocentrismo ou o egoísmo.

A reeducação do ego deve ser a de torná-lo mais individual, sem, contudo, esmagar outros egos.”


Tomara que eu tenha comunicado a essas adoráveis criaturas o que penso da maneira mais próxima do que penso. E o que eu penso é que não há como fugir do ego porque ele é da nossa constituição mesma. Ele é fruto de um lento processo evolutivo e tem sua função, sua razão de ser. Se está sujeito a disfunção ou distorção, é porque tudo o mais na natureza e no mundo da cultura está.

Acredito que a missão do indivíduo (se é que existe) é estabelecer uma marca, qualquer que seja e de que amplitude for. O indivíduo que não se indiferencia do todo indeterminado e não estabelece um sentido próprio, único, para o mundo, não se individualiza, se me permitem essa tautologia.

Agora, parece haver na ânsia de dissolução do ego uma expectativa do tipo religiosa, como uma fuga para um mundo sem conflitos. E essas expectativas perpassam diversas religiões e crenças, como o cristianismo e o hinduísmo.

O problema com algumas filosofias hinduístas, por exemplo, é que pregam a dissolução do ego por meio do ato sexual, quando isso é função precípua do envelhecimento e da morte. Só uma orientação feminina da sexualidade, com enormes repercussões na estrutura de poder, seria capaz de conceber que a natureza criou bilhões de neurônios para serem dissolvidos no êxtase.

O que faz da vida humana um drama é que, para sobrevivermos, somos obrigados a desenvolver um ego e aprender a amá-lo, para depois um dia sermos obrigados a abrirmos mão dele. E o pior é que a certeza de que um dia nos desfaremos, nos desfazendo do nosso ego, nos acompanha todo dia numa espécie de sofrimento antecipado. Como antídoto para esse mal, há em todas as crenças exercícios de desprendimento e entrega, cuja eficácia, porém, é sempre parcial. Mais dia menos dia, o ego está sempre batendo à nossa consciência para nos alertar de sua incômoda presença, que equivale, paradoxalmente, à sensação de estarmos vivos.

Se inevitabilidade do ego, por outro lado, não deve lhe dar poderes extremos, o poder, em si, deve ser um elixir, aos invés de se transformar em veneno. A nossa ideia de poder é ainda antiquada, pouco mais que um verniz sobre o comportamento de primatas. Até mesmo um compositor com pretensões humanistas como Bob Dylan escreveu uma canção conformista afirmando que "Você tem [sempre] de servir alguém / Pode ser o diabo ou pode ser Deus / mas você tem de servir alguém". No original: "You're gonna have to serve somebody, yes indeed / You’re gonna have to serve somebody / Well, it may be the devil or it may be the Lord / But you’re gonna have to serve somebody".

Gênio dos timbres e das inflexões, pregador blasfemo, Dylan é bíblico em quase tudo, e eis porque sua noção de poder está equivocadamente impregnada dessa obrigatoriedade de um servir submisso. Ainda estamos às voltas com as velhas formas de humilhação latentes e patentes nas expressõe do tipo "ferrar alguém" ou "sentar no colo do chefe". A ameaça de curra do macho alfa é o que ainda determina a configuração das nossas estruturas de poder, a despeito dos avanços institucionais e culturais e de rebeliões cosméticas como a da atual onda da "diversidade".

Atormentados por essas demandas, entregamos nossas vidas a cavar espaço nas fileiras dos medrosos e dos puxa-sacos. É o senso de colocação nessas estruturas que definem o que vamos comer, beber, ler, ouvir, falar e até a quem vamos amar.

Antes eu pensava que qualquer projeto de poder que se prezasse teria de ser para a vida toda e ter esse viés formal,a chancela dos modelos tidos como vencedores. Hoje vejo que o poder desejável situa-se no limite do significado da própria palavra "poder": a possibilidade de se fazer qualquer coisa, de preferência boa, em qualquer, tempo, em qualquer lugar, independentemente de cargo ou mandato.

Mas vejo tudo isso sob um ponto de vista político, político no sentido amplo, ao ponto de não acreditar em amor que não esteja liberto da noção do poder como serviço submisso. O amor deve ser um serviço entre pessoas livres, livres a ponto de se compreenderem.Quando se chega à compreensão, cessa o poder. Ou melhor, o poder torna-se pleno, para dois ou mais.

A "ingênua flor" do início desse artigo é uma dessas pessoas que me fazem sonhar com um amor não submisso, mas no qual um ego pode reconhecer com apaixonada serenidade a grandeza do outro, mesmo que o sentimento, na sua gênese, carregue a essência do fetiche e um poeta possa declarar: "Que prazer o meu / Tocar um objeto teu / À mercê estou / De um eu mais forte do que eu".