sexta-feira, 31 de julho de 2020

Memórias de um velho lobo

Cidade do DF que traz o Guará em seu nome tem importante espaço ambiental

Lugar de intensa vida comunitária, foi até os anos 1980 o paraíso da amizade e das festas
As terras onde foi implantada a cidade do Guará faziam parte da antiga Fazenda Bananal, então pertencente ao município de Planaltina-GO. O nome tem como origem o Córrego Guará, que banha a região, e se origina do Lobo Guará, espécie comum no cerrado brasileiro. A palavra Guará deriva do tupi auará, significa “Vermelho” e é associada tanto ao Lobo-Guará quanto à Ave-Guará.
Quando criança e adolescente andei por esses cerrados em torno da cidade para pegar varetas de buriti ou cajuzinho. Ou simplesmente pra perambular. Não fosse o Parque Ezechias Heringer, as pressões imobiliárias e rodoviaristas teriam tornado o local bem mais inóspito.



Testemunhando recentemente uma série de modificações nas destinações de uso de casas e edifícios da cidade, pude perceber o quanto o projeto urbanístico do Guará, embora modesto, era interessante, com quadras moduladas, mas de feitio orgânico, especialmente no Guará I, onde vivi dos 12 aos 35 anos.
Muita coisa bacana aconteceu ali: amizades, vida familiar, festas, amores, descobertas diversas. Ainda hoje o pessoal do Guará é bem unido, mesmo na distância. E vejam que era uma comunidade heterogênea culturalmente e do ponto de vista sócio-econômico, com pessoas vindas de vários estados brasileiros, principalmente do Norte e Nordeste, de Goiás e Minas Gerais. Nos primeiros tempos, havia ali funcionários públicos de baixo e médio escalão, inclusive do aparelho policial, professores, pequenos empresários, barbeiros e vendedores ambulantes, marceneiros, borracheiros e uma pequena parcela de engenheiros e arquitetos que participaram da construção da cidade. Todo esse contingente teve direito a casas maiores ou menores, dependendo da renda, com financiamento a custos baixíssimos.

Muitas ruas só vieram a recebera calçamento muito tempo depois de inaugurada a cidade. Até os anos 80 do século XX viveu-se ali uma vida bastante interiorana, com muito proximidade, mesmo entre pessoas de quadras não tão próximas. Uma das razões era a congregação por meio de atividades religiosas, sendo a principal delas na Igreja de São Paulo Apóstolo, em torno da qual se montaram grupos de jovens e adolescentes, e o clima festeiro do Guará, que levava a peregrinações de fim de semana em busca de divertimento em casas de família, nos quais era difícil sermos barrados, independentemente de não termos sido convidados, por causa da influência dos amigos e de amigos de amigos.


O Guará dos anos 1980. Ao fundo, os eucaliptos da EPTG, hoje retirados

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O tocador de latas - Brasília dos anos 80

Esse músico de rua tinha uma intuição incrível. O vi tocar várias vezes alí nas imediações do Conic e da Rodoviária do Plano Piloto. O timbre um tanto extravagante dessas latas não chegava a ser um problema diante do talento dele para reproduzir melodias. O personagem estava esquecido, mas alguém colocou nas redes essa fotaça, cuja autoria desconheço. Se alguém soubee, favor informar para que possamos dar o crédito.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Heleno – Mais um gol perdido pelo cinema brasileiro



A biografia-ficção ‘Heleno, o Príncipe Maldito’ é uma daquelas boas ideias que têm potencial apenas superficialmente aproveitado pelo cinema brasileiro, sempre às voltas com problemas de roteiro, ritmo, diálogos e montagem.
O personagem e sua história são muito interessantes, mas o filme, de R$ 8,5 milhões, não nos permite mergulhar junto com o astro do Botafogo na sua tragédia pessoal, contraponto de uma carreira curta e tumultuada, mas em grande parte gloriosa.
Apesar de algumas cenas fortes, a película nos mantém à distância a maior parte do tempo, embora não por intenção dos realizadores, mas por inabilidade mesmo. Privados do auto-engano a que chamamos de suspensão temporária da verdade, nem a incrível transformação de Rodrigo Santoro no Heleno decadente nos põe dentro do filme, deixando a suspeita de que o diretor igualmente ficou de fora. Talvez alguém menos conhecido nos livrasse da constatação periódica de que estamos vendo o nosso premiado ator - e não o dândi controvertido da era anterior a Pelé. A montagem coopera para nos distanciar emocionalmente da história, já que as idas e vindas roubam muito do suspense, ainda que tratemos de fatos de conhecimento público.
O efeito pretendido com a escolha do preto e branco até ajuda a criar o clima de volta ao passado, e funciona bem como metalinguagem, já que o trecho mais importante da trajetória de Heleno se desenvolveu no alvinegro de General Severiano. Ainda assim, é pouco para um filme que pretende nos apresentar a vida daquele que é considerado o primeiro craque-problema do futebol brasileiro.
Falta um pano de fundo, informações sobre o ambiente familiar de Heleno, e o que ocorreu até o jogador, galã e fumante compulsivo, ser flagrado pelas câmeras do diretor José Henrique Fonseca em cenas de amor com belas mulheres e lenços empapados de éter. Ele então já apresentava os primeiros sintomas da sífilis que, na vida real, o mataria em 1959.
Para não deixar o espectador totalmente perdido, há um telefonema da mãe cobrando a escolha de “uma boa esposa” e a lembrança de uma canção de ninar. Essa recordação está, aliás, sujeita a duas interpretações cruciais: anteciparia o destino do filho ou fundaria seu caráter. É nesse ponto que o roteiro, ou sua execução, embolam o meio de campo, ao cruzar perigosamente a linha entre realidade e ficção.
Heleno, o personagem, relembra que o pai costumava embalá-lo ao som de Nature Boy, composta por Eden Ahbez e publicada em 1947. Teria sido um achado, mas a saída para explicar o explosivo temperamento do biografado falha quando nos damos conta de que o ídolo nasceu em 1920. Assim, provavelmente foi ninado até os cinco, seis anos. Não há contemporaneidade alguma entre a infância de Heleno e o surgimento da canção – até para justificar uma liberdade poética.
Além disso, o recurso mostra-se frágil porque a música irrompe de forma descontextualizada , como uma senha para iniciados. É um desses cacos tão ao gosto de cineastas ávidos por firulas e pouco dispostos ao que é básico para um resultado convincente entre as quatro linhas da tela de projeção.
Mesmo tendo sido gravada por Caetano Veloso no álbum Totalmente Demais Ao Vivo, e numa versão em Português por Ney Matogrosso, Nature Boy não é exatamente conhecida de um público mais amplo, que teria de entender a menção a um ‘strange, enchanted boy’ (rapaz estranho e encantador).
O que parece é que o diretor buscou identificar o caráter autêntico do personagem da música à bravura indômita do jogador. Ocorre que o nature boy da canção é tímido, sossegado e prega como valor essencial da vida o dar e receber amor. Heleno era um ególatra agressivo e buscava, na visão expressa pelo roteiro, apenas receber amor. O máximo que dava era prazer sexual.
A canção é utilizada inclusive como o mote de uma entrevista subhollywoodiana, que não se sabe se ocorreu de verdade, na qual o jogador fala pouco do esporte que o notabilizara, e sim de suas extravagâncias, pedindo ao final para cantar ele próprio a música. Essa sequência tem ainda outra derrapagem forte, provocada pela locução pouco convincente do entrevistador, que não sustenta a emissão gutural típica dos anos 40/50.
Outra fraqueza do filme é percorrer os descaminhos de Heleno por um submundo emocional de aventuras amorosas e consumo de drogas, tangenciando a carreira futebolística, e desta omitindo informações importantes. Restam aquelas breves cenas de jogos e treinos, que não dão a mais pálida ideia do que transformou Heleno em personagem de um filme milionário. Sem o brilhantismo e a genialidade em campo, ele seria mais um playboy flanando pela praias do Rio.
É claro que enveredar pela degradação moral e física do ídolo evitou o complicado, mas necessário, trabalho de pesquisa e produção na seara do futebol. A saída? Inflar o filme com cenas de um viciado, relegando seu gênio como jogador – quem sabe a única virtude de Heleno – praticamente a meras afirmações no correr dos diálogos.
Em suma, José Henrique Fonseca teve uma boa oportunidade para marcar, mas chutou na trave.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O Globezerro de Ouro e outras manipulações


“Oh, la mato y aparece una mayor” (Sueño com serpientes – Silvio Rodriguez)


Estamos numa armadilha, como de resto os seres humanos sempre estiveram. Nunca houve uma época de harmonia e segurança. Atualmente, enquanto buscamos nos beneficiar das conquistas da tecnologia digital, uma série de questões éticas nos aflige.

O importante é deixar claro que não há inocência em nossos atos. Isso talvez nos ajude a lidar melhor com a situação.


Nesta semana, quando de um momento para o outro as atenções dos internautas mudaram repentinamente do abuso sexual no Big Brother para o golpe publicitário da 'Luiza do Canadá', ficou patente a nossa fragilidade psicossocial, o que foi confirmado pela escassa discussão em torno da própria mudança do tema líder de audiência.


O caso do Big Brother, tendo ou não tendo havido estupro, era grave demais para ceder lugar a uma corrente ou onda sobre assunto absolutamente insosso, embora eivado de interesses econômicos e outros menos visíveis.


A princípio, os parceiros na publicidade de um empreendimento imobiliário utilizaram as ferramentas para iniciar ou potencializar o sucesso do slogan que depois ganhou o país e o mundo.


A partir daí, como uma 'brincadeira inocente' todo mundo quis entrar no jogo e pegar carona na fama instantânea que a menção ao slogan propiciaria, postando cada a um a seu modo algo relacionado. A coisa saiu até do terreno virtual e alcançou as mesas de botecos, as rodas de cafezinho e shows de artistas consagrados como Lenine.


Excetuando o aspecto meramente comercial dos principais envolvidos na jogada publicitária, houve no episódio, acredito, um movimento de alívio psíquico inconsciente provocado pelo choque do Big Brother. Quase como que num grande acordo tácito todos resolveram afastar aquele incômodo de perceber, além da ocorrência de um abuso, consentido ou não, que há 12 anos a sociedade brasileira compactua com um dos conteúdos mais imbecilizantes e eticamente inaceitáveis da TV/internet.


Luíza do Canadá, com seu rostinho sorridente de filhinha-de-papai-no-intercâmbio, passou um bálsamo em nossa grande ferida moral. Ah! Que refrescante sabor de menta!


Não por acaso, a Globo fez um movimento rápido e levou a moça para os estúdios do Jornal Hoje em São Paulo, onde ela foi aplaudida de pé pelos jornalistas da emissora (!!!!!) e entrevistada pelo bonachão Evaristo, que dias antes protagonizara outra corrente de postagens por causa de uma brincadeira com surrado trocadilho “uma-mão”.


Desde então, a emissora evita dar mais do que esfarrapadas explicações - no sentido de que o estupro foi negado por e que Monique 'consentiu' nas carícias embaixo do edredom. De qualquer maneira, Daniel foi “expulso por comportamento inadequado”. Ora se o leito e o clima foi providenciado pela produção do Big Brother e atitude dos dois foi saudada pelo próprio apresentador do programa, Pedro Bial, com a frase “o amor é lindo”, então por que Daniel foi expulso?


Do espetáculo grotesco, fez parte também a divulgação pelo Jornal Nacional das providências da polícia para investigar o caso, o que incluiu o recolhimento de roupas íntimas para análise de fluídos, secreções, etc...


Não convenceu igualmente a alegação da Globo de que as imagens do abuso só foram veiculadas para os assinantes do serviço de transmissão paga e, na sequência, por outras emissoras. Não desconsiderando que aí houve também diversos tipos de aproveitamento por parte das concorrentes, o fato é que a Globo não pode esconder que as imagens pagas do Big Brother não ficam restritas, uma vez que existem muitos sites de compartilhamento como o YouTube para ofertar de graça o que a Globo vende a seus assinantes. E que isso é muito interessante para a Globo como propaganda do Big Brother.


A verdade é que estamos TODOS envolvidos num grande esquema de manipulação de informações, ideias, conceitos. Alguns com mais honestidade de propósito que outros, mas de toda maneira não há como alguém reivindicar para ninguém uma imagem de pureza.


Isso não quer dizer que devemos aceitar que “a internet é isso mesmo”, ou que, superados os aspectos formais da velha cultura vigente até a Segunda Guerra Mundial, qualquer comportamento pode ser aceitável, desde que dê dinheiro.

O falso moralismo da TV Record, ao criticar as duas ondas (BBB e Luiza do Canadá), evidencia o quanto estamos sujeitos a inverdades, uma vez que a emissora está apoiada em um dos maiores negócios de manipulação, no caso religiosa, do planeta.

A armadilha está aí e lembra outra muito antiga, a do bezerro de ouro dos escritos bíblicos, ainda que alguém possa me alertar para o fato de que a troca de falsos ídolos por um deus único foi apenas uma conveniente manobra dos poderosos de então.


Quando a razão dificulta o nosso trânsito pelo espinheiro das ideias, dos fatos e dos valores, a poesia pode às vezes ajudar. Como é o caso daqueles versos de Silvio Rodriguez, de uma Cuba também em armadilha, citados na epígrafe. Desculpem-me se não fui rápido, como prometi:


Sueño Con Serpientes

Hay hombres que luchan un día

Y son buenos.

Hay otros que luchan un año

Y son mejores.

Hay quienes luchan muchos años

Y son muy buenos.

Pero hay los que luchan toda la vida:

Esos son los imprescindibles.

Bertolt brecht

Sueño con serpientes, con serpientes de mar,

Con cierto mar, ay, de serpientes sueño yo.

Largas, transparentes, y en sus barrigas llevan

Lo que puedan arrebatarle al amor.

Oh, la mato y aparece una mayor.

Oh, con mucho más infierno en digestión.

No quepo en su boca, me trata de tragar

Pero se atora con un trébol de mi sien.

Creo que está loca; le doy de masticar

Una paloma y la enveneno de mi bien.

Ésta al fin me engulle, y mientras por su esófago

Paseo, voy pensando en qué vendrá.

Pero se destruye cuando llego a su estómago

Y planteo con un verso una verdad.


Sonho Com Serpentes

Há homens que lutam um dia

E sao bons.

Há outros que lutam um ano

E sao melhores

Há aqueles que lutam muitos anos

E são muito bons.

Porém há os que lutam toda a vida

Esses são os imprescindíveis

Bertolt brecht

Eu sonho com serpentes, com as serpentes do mar

Com certo mar, oh, de serpentes sonho eu

Grandes, transparentes e em suas barrigas carregam

O que pode acabar com o amor

Ah, eu a mato mas aparece uma maior

Oh, com mais voracidade em digerir

Não caibo em sua boca, logo ela se encarrega de me engolir.

Mas se engasga com meu trevo da sorte

Eu acho que ela está louca: lhe dou a mastigar

Uma pomba da paz e a enveneno com o que há de bom em mim.

Essa enfim me engole, e entro por seu esôfago,

Vou passando, vou pensando no que acontecerá

Mas ela se destrói quando chego ao seu estômago

E planto com um verso uma verdade

quarta-feira, 16 de março de 2011

A vida dura dos políticos na Suécia

Não há mágicas no caminho do desenvolvimento. Vejam no vídeo

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Sobre os 'desastres naturais': Ocupação urbana desordenada começou no período colonial


Há algo de extremamente poético na silhueta das cidades brasileiras, mas que está entre as causas estruturais dos desastres verificados ultimamente em muitas de nossas áreas urbanas. O exemplo mais recente é o da região serrana do Rio. Esse elemento de beleza decorre justamente da forma como a maioria das cidades surgiram e se desenvolveram desde os tempos coloniais: acompanhando as linhas do relevo e com pouco ou nenhum planejamento.

Leia mais em: http://www.senado.gov.br/noticias/verNoticia.aspx?codNoticia=106743&codAplicativo=2

sábado, 6 de março de 2010

Sobre ego e poder


A propósito da minha já batida afirmação de que a vida humana gira em torno de poder – ainda que talvez isso fosse condenável – recebi de duas amigas respostas diferentes. A primeira me disse:

“Creio que um dos maiores questionamentos do homem é... Qual o sentido da vida?
O poder, bem como o capital, fornecem a falsa sensação de sentido e por isso tantas vidas humanas giram em torno deles...”

E completou, comentando minha afirmação poética de que “mesmo a mais ingênua das flores busca impressionar com suas cores e perfumes, em busca de um lugar na natureza”:

“Bonita a visão da ingênua flor que impressiona.. cada um tem o seu lugar ao sol.... já essas "capacidades" políticas tem lugar ao sol e à sombra.. rs..”



Da outra amiga recebi uma carinhosa reprimenda e um trecho de um texto de Eckart Tolle:

“Para sobreviver, o ego precisa de uma grande quantidade de atenção. Ele é viciado em poder, reconhecimento e conflito e se ocupa de comparar a si mesmo com outros egos. Ele se vê separado dos outros e do mundo. Pensa em termos de “melhor que”, “menos que” e “maior que” e vive pela graça do ataque e defesa. Tolle diz: “Os egos diferem apenas no exterior. No fundo, são todos iguais. Vivem na identificação e separação. Todo ego luta continuamente para sobreviver, tentando se proteger e se expandir. Como quer que o ego se manifeste, a força motriz oculta por trás dele é sempre a mesma: a necessidade de se diferenciar, de ser especial, de ser o patrão; a necessidade de poder, de atenção, de mais. E, é claro, a necessidade de uma sensação de separação, isto é, de oposição, de inimigos.”

À primeira repliquei:

“Ainda bem que você aspeou "capacidades" porque o sentido da palavra era justamente irônico. Todos os dias vemos tais capacidades por um fio.

Essa discussão me lembrou aquele desabafo de Vinícius de Moraes, que dizia lamentar ter um dia deixado a Gávea, o bairro onde nascera, e não ser apenas "príncipe do meu próprio reino", nas palavras dele.

O nosso extraordinário poeta falou, a meu ver, com a ingenuidade da flor, porque a vida o empurrou da Gávea para Botafogo, de Botafogo para Chelsea (em Londres), de volta para o Rio em bairros que desconheço, em seguida para Beverly Hills (Los Angeles) e de volta para outros bairros do Rio, principalmente Ipanema, ao sabor dos amores, dos casamentos, das canções e dos porres. Vinícius morou ainda em Itapoã (Salvador) e , se não me engano, em algum barrio de Buenos Aires. Não conseguiu voltar para a Gávea, até onde eu sei, e nem ser príncipe de seu próprio reino.

Ora, ele, é claro, intuía que o maior poder está em nos livrarmos da tentação das lutas pelo grande poder e termos a satisfação de dominarmos aspectos da nossa vida que permitam o surgimento de nossas melhores, mais plenas e mais profundas capacidades. No entanto, lutamos pela cidade, pelo mundo, e quando olhamos em volta, estamos circunscritos a bairros físicos e de outras naturezas, mas nunca o bairro original, para quem ousou pôr os pés no mundo.

Os percalços do poetinha tinham outro ingrediente que, a meu ver, permeia igualmente a luta pelo poder: seu desejo de voltar ao seio materno (de onde jamais deveria ter saído???). Desafiados pela hostilidade do ambiente e pela quantidade enorme de trabalho a ser feito em prol da civilização, nós debatemos entre a nostalgia de um conforto impossível e o dilaceramento de tudo que nos possa impedir o sonho de recuperá-lo. Poder, poder, poder. Ao recusar a luta política formal (traduzida apenas em manifestação artística), Vinícius recuperou o sonho do seio materno na ilusão/desilusão momentânea de cada amor, o que acabou beneficiando o nosso repertório e a nossa identidade cultural.

Sem querer projetar nostalgias para o futuro, ainda demorará até que possamos ser apenas flores ao sol. E isso implicará, sem dúvida alguma, e muito infelizmente, luta política.”


À segunda e em alusão específica ao texto de Tolle, respondi:

“Perfeito.

A coisa [o ego] se desenvolveu assim mesmo e penso que foi de propósito - não como uma anomalia.

A anomalia, a meu ver é o egocentrismo ou o egoísmo.

A reeducação do ego deve ser a de torná-lo mais individual, sem, contudo, esmagar outros egos.”


Tomara que eu tenha comunicado a essas adoráveis criaturas o que penso da maneira mais próxima do que penso. E o que eu penso é que não há como fugir do ego porque ele é da nossa constituição mesma. Ele é fruto de um lento processo evolutivo e tem sua função, sua razão de ser. Se está sujeito a disfunção ou distorção, é porque tudo o mais na natureza e no mundo da cultura está.

Acredito que a missão do indivíduo (se é que existe) é estabelecer uma marca, qualquer que seja e de que amplitude for. O indivíduo que não se indiferencia do todo indeterminado e não estabelece um sentido próprio, único, para o mundo, não se individualiza, se me permitem essa tautologia.

Agora, parece haver na ânsia de dissolução do ego uma expectativa do tipo religiosa, como uma fuga para um mundo sem conflitos. E essas expectativas perpassam diversas religiões e crenças, como o cristianismo e o hinduísmo.

O problema com algumas filosofias hinduístas, por exemplo, é que pregam a dissolução do ego por meio do ato sexual, quando isso é função precípua do envelhecimento e da morte. Só uma orientação feminina da sexualidade, com enormes repercussões na estrutura de poder, seria capaz de conceber que a natureza criou bilhões de neurônios para serem dissolvidos no êxtase.

O que faz da vida humana um drama é que, para sobrevivermos, somos obrigados a desenvolver um ego e aprender a amá-lo, para depois um dia sermos obrigados a abrirmos mão dele. E o pior é que a certeza de que um dia nos desfaremos, nos desfazendo do nosso ego, nos acompanha todo dia numa espécie de sofrimento antecipado. Como antídoto para esse mal, há em todas as crenças exercícios de desprendimento e entrega, cuja eficácia, porém, é sempre parcial. Mais dia menos dia, o ego está sempre batendo à nossa consciência para nos alertar de sua incômoda presença, que equivale, paradoxalmente, à sensação de estarmos vivos.

Se inevitabilidade do ego, por outro lado, não deve lhe dar poderes extremos, o poder, em si, deve ser um elixir, aos invés de se transformar em veneno. A nossa ideia de poder é ainda antiquada, pouco mais que um verniz sobre o comportamento de primatas. Até mesmo um compositor com pretensões humanistas como Bob Dylan escreveu uma canção conformista afirmando que "Você tem [sempre] de servir alguém / Pode ser o diabo ou pode ser Deus / mas você tem de servir alguém". No original: "You're gonna have to serve somebody, yes indeed / You’re gonna have to serve somebody / Well, it may be the devil or it may be the Lord / But you’re gonna have to serve somebody".

Gênio dos timbres e das inflexões, pregador blasfemo, Dylan é bíblico em quase tudo, e eis porque sua noção de poder está equivocadamente impregnada dessa obrigatoriedade de um servir submisso. Ainda estamos às voltas com as velhas formas de humilhação latentes e patentes nas expressõe do tipo "ferrar alguém" ou "sentar no colo do chefe". A ameaça de curra do macho alfa é o que ainda determina a configuração das nossas estruturas de poder, a despeito dos avanços institucionais e culturais e de rebeliões cosméticas como a da atual onda da "diversidade".

Atormentados por essas demandas, entregamos nossas vidas a cavar espaço nas fileiras dos medrosos e dos puxa-sacos. É o senso de colocação nessas estruturas que definem o que vamos comer, beber, ler, ouvir, falar e até a quem vamos amar.

Antes eu pensava que qualquer projeto de poder que se prezasse teria de ser para a vida toda e ter esse viés formal,a chancela dos modelos tidos como vencedores. Hoje vejo que o poder desejável situa-se no limite do significado da própria palavra "poder": a possibilidade de se fazer qualquer coisa, de preferência boa, em qualquer, tempo, em qualquer lugar, independentemente de cargo ou mandato.

Mas vejo tudo isso sob um ponto de vista político, político no sentido amplo, ao ponto de não acreditar em amor que não esteja liberto da noção do poder como serviço submisso. O amor deve ser um serviço entre pessoas livres, livres a ponto de se compreenderem.Quando se chega à compreensão, cessa o poder. Ou melhor, o poder torna-se pleno, para dois ou mais.

A "ingênua flor" do início desse artigo é uma dessas pessoas que me fazem sonhar com um amor não submisso, mas no qual um ego pode reconhecer com apaixonada serenidade a grandeza do outro, mesmo que o sentimento, na sua gênese, carregue a essência do fetiche e um poeta possa declarar: "Que prazer o meu / Tocar um objeto teu / À mercê estou / De um eu mais forte do que eu".

domingo, 25 de outubro de 2009

O Rio (de novo) carnavalesco e performático




Confirmando o que disse em postagem neste blog alguns dias atrás, os cariocas parecem presos a estratégias antigas e desgastadas para lidar de maneira prática e eficaz com seus problemas. segue a nota com as fotos publicadas pela imprensa sobre a nova escalada da violência no Rio de Janeiro.


"Mais uma vez os cariocas pedem paz
Foto: Michel Filho/O Globo

De Taís Mendes:
O movimento Rio de Paz Cerca promoveu neste sábado, na orla de Copacabana, uma manifestação contra a violência. Com vinte carrinhos de supermercados carregando manifestantes com máscaras brancas, o grupo reproduziu a imagem de um homem assassinado no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, deixado dentro de um carrinho, que ganhou a primeira página de vários jornais na semana passada. Leia mais em Manifestação na orla de Copacabana reproduz corpo deixado em carrinho no Morro dos Macacos ."


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A MAÇÃ


Todo trabalho humano,

Para ter algum valor,

Exige sacrifício.

Afinal, o mundo estava pronto,

Por ofício de Nosso Senhor,

E viver era só questão de ócio.

Quem foi que disse

Que reinventá-lo

Seria fácil?

domingo, 4 de outubro de 2009

O Rio 2016 e a redenção pelo Carnaval


Há algumas décadas, o município do Rio de Janeiro sofre com problemas econômicos e sociais. E já se tornou comum atribuí-los à transferência da capital federal para Brasília, em 1960. De centro das decisões do país, lugar de belezas paradisíacas e usina das manifestações culturais mais emblemáticas do país, em 50 anos o Rio foi se transformando num cenário de lamentáveis degradações, mais lamentáveis sobretudo pelo fato de ser a cidade-símbolo do Brasil.


A despeito disso, o Carnaval manteve-se como forte paixão cultural e um importante motor econômico e social da sociedade carioca. Mais do que isso, o carnaval perdura como a matriz das realizações do Rio, como um modelo de disciplina para o trabalho. É o caráter carnavalesco, e não uma disposição pura e simples para construir e reconstruir, que parece predominar na cultura carioca. Pelo prêmio de uma noite na avenida e da possível vitória da sua escola, o carioca se atira ao trabalho duro, ainda que a imagem do samba remeta a preconceitos relacionados com a preguiça.


O trabalho para a festa mobiliza. O trabalho pelo trabalho, como um dever moral acima de qualquer outro, válido em si mesmo, não parece entusiasmar muito. E isso não tem nada que ver com desocupação. Todos os dias, o carioca vai ao trabalho. Entretanto, a construção, e principalmente a reconstrução, exigem mais do que assiduidade: exigem um esforço além do usual, como o daqueles europeus que reergueram cidades inteiras destruídas por bombardeios.


O trabalho para o carnaval é o trabalho com vistas à redenção, originalmente pelas comunidades pobres dos morros. Mas isso impregnou igualmente os costumes da cidade como um todo e, de certa maneira, os do país. O Rio é, desse modo, cidade sempre à espera de um grande evento redentor. E talvez seja mais do que coincidência ter como um de seus símbolos maiores o Cristo de braços abertos sobre a Baía de Guanabara.


Muito se tem discutido sobre como reerguer a cidade economicamente; livrá-la das chagas sociais da miséria e da criminalidade; e devolver-lhe parte do que foi perdido em termos ambientais. Passaram prefeitos e governadores; presidentes da República fizeram promessas; cidadãos conscientes organizaram protestos nas praias e abraçaram coletivamente a poluída Lagoa Rodrigo de Freitas. Nada disso teve uma efetividade em larga escala. E o pior, o Carnaval, por si só, não foi capaz de redimir o Rio.


Agora, o esforço e a boa circunstância, fizeram surgir uma nova meta: a realização dos Jogos Olímpicos daqui a sete anos na Cidade Maravilhosa. Entra, pois, novamente em cena a vertente carnavalesca do trabalho como a única possibilidade viável para o Rio. Unidos em torno da ideia, políticos, esportistas e personalidades comemoram com o entusiasmo de garotos a vitória da cidade no certame para a escolha da sede dos jogos de 2016. Muitos deles choraram copiosamente, como numa final de copa do mundo. E era mais do que em razão do ideal alimentado desde a Grécia Antiga. O que se espera agora é que se acenda a chama de mais um grande, inesquecível e redentor desfile.


Abaixo a letra do samba da Portela de 2007 em homenagem aos jogos Panamericanos

Os Deuses do Olímpo Na Terra do Carnaval: Uma Festa do Esporte, Saúde e Beleza
Composição: Diogo Nogueira, Ciraninho e Celsinho de Andrade
"O mensageiro do Olimpo anunciou:

É Carnaval! Brasil, hoje é a Terra dos Deuses Lindo paraíso tropical

A majestade do samba Acende a chama e recebe as nações

Seu manto cobre o Rio de Janeiro

Chegou a hora de unir os corações

Voa minha águia leva o meu cantar

Semeando a paz pelas Américas

O show do Pan vai começar
Sou recordista de samba no pé

Exemplo de garra e fé

Medalha de ouro em bateria

Eu sou atleta e canto até raiar o dia
O homem lutou por fronteiras

Por seus interesses, religiões...

Hoje suplanta barreiras,

Desfaz preconceitos, juntando nações...

Esporte é vida! É beleza e emoção

É esperança, amizade, inspiração

Portela, de azul e branco em aquarela

Supera todos os limites

Vem levantar sua bandeira

O samba, de alma verde e amarela

Abençoado pelos deuses

Vem coroar Oswaldo Cruz e Madureira

Eu sou a raiz do samba Saúde e beleza na Passarela

O Ninho da Águia, celeiro de bambas

Sou Rio, sou esporte e sou Portela."

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Um poema para segunda

Gaugin




A ILHA




O que nela verdeja
Mal deixa ver
O invólucro de névoa.
Se almeja, é não almejar
(sentinela do imutável,
Condição de estar).

Mas eis que,
De um convés qualquer,
(É justo imaginar)
Observa-lhe um olhar sem muros,
Disposto a empreender...basta.
Logo vai-se pôr no duro,
Diário ofício de ser.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Crônica da lua


Há muitas e belas fotos disponíveis nesses dias em que se comemoram os 40 anos da chegada do homem à Lua. Escolhi esta que é parte de um álbum acessível pelo endereço http://www.boston.com/bigpicture/2009/07/remembering_apollo_11.html .

A menina da imagem acima é mãe do cidadão norte-americano que publicou a foto na Wikipédia. De acordo com ele, a garota foi fotografada pelo pai em 21 de julho, enquanto supostamente lia a matéria do Washington Post sobre o feito heróico. Tinha, então, entre 10 e 12 anos. Hoje teria por volta de 50. Talvez até já seja avó - o que me leva a escrever sobre a efeméride lunar a partir do ângulo da passagem do tempo para nós outros de pés quase sempre ao chão: nem astros do céu, nem estrelas da corrida espacial.

Afirmam os cientistas que no decorrer de uma viagem muito longínqua o tempo transcorreria de maneira assimétrica no espaço e na terra. Esse descompasso manteria os astronautas praticamente inalterados, enquanto, aqui, eras se passariam, sepultando gerações e tornando o cenário absolutamente irreconhecível para os viajantes.

A hipótese integra a teoria da relatividade, mas é descrita nesta crônica com a imprecisão típica dos poetas. A mesma hipótese deu base ao roteiro de O Planeta dos Macacos, antigo sucesso do cinema e da TV. Tratado por coordenadas científicas, pelo arroubo dos poetas ou pela melancolia do chamado cidadão comum, o tempo é dado a chicanas e avaliações desconcertantes.

Desafiador, portanto, é aquilatar o significado desses 40 anos?

Acredito que as quatro décadas em evidência tem valor diferente, segundo se examine o período em termos da evolução histórica ou segundo se coteje o que aconteceu com Armstrong, Aldrin e Collins, os três tripulantes da Apolo 11. Outros valores teriam, igualmente, fossem examinados os destinos das testemunhas televisivas do evento ou dos que se inteiraram daqueles fatos ao longo dos anos - as novas gerações.

Para alguns de nós, que já havíamos acordado para a vida em 20 de julho de 1969, 40 anos podem ter passado “voando”, ou num lento cortejo. No caso da maioria, a sensação de préstito é provavelmente a mais comum. São, grosso modo, 14.600 dias, 350.400 horas . Muito foi feito, dito, pensado e sentido nesse intervalo. Houve bastante tempo para desejar, agir, sorrir, sofrer. Bastante tempo para cismar frente à imensidão e incerteza, inclusive com a lua a boiar no firmamento apenas de leve arranhado pelos foguetes e naves terráqueas.

A História, deixo aos historiadores. Minha curiosidade acerca da equipe serenamente comandada por Armstrong, ainda hei de satisfazer. E cada um que faça sua própria avaliação do quanto realizou ou deixou de realizar nesse intervalo. Mais importante: do quanto viajou e cresceu interiormente. Mal ou bem, mesmo antes de encerrada a conquista espacial, que agora segue em direção a Marte, não deixamos de empreender a jornada recomendada à época pelo poeta Carlos Drummond de Andrade. Referindo-se à febre em torno da esfera extraterestre, ele escreveria que ao homem, afinal, restaria apenas “a dificílima, dangerosíssima viagem de si a si mesmo”. (Leia em http://solangef.wordpress.com/2008/02/09/carlos-drummond-de-andrade-o-homem-as-viagens/ .

O que posso dizer é que a jornada tem sido de fato “dangerosíssima”, no que diz respeito à minha evolução social, psíquica e cultural. Talvez intuisse esses perigos, aoa temer tanto pela sorte do Planeta Terra ante a ousadia do homem em lançar-se ao cosmos. Aos oito anos, temia especialmente, e de uma maneira muito ansiosa, que o céu caísse sobre nossas cabeças – e não estava só. Mas isso, obviamente, justificava-se pela minha natureza inquieta e imaturidade de garoto interiorano. Hoje, ainda pipocam céticos renitentes à idéia do pouso lunar, como se nem aviões houvesse no ar, ou a estação espacial fosse uma quimera.

Minhas fantasias catastróficas, agora recordo, me levaram a sonhar que os astronautas tinham pisado o lácteo solo da lua. O temerário ato fizera despencar a abóbada celeste como se fossem painéis de madeira. Eu podia até sentir o peso dos pedaços sobre meu peito. Quando acordei, o que pesava era Zanata, o gato que havia pulado na cama em busca de atenção.

Um alívio! Só que o céu despencou várias vezes sobre minha cabeça durante os 40 anos seguintes. Hoje vejo: o medo de um dia me perder para sempre no espaço infinito era o medo da própria trajetória em direção ao futuro. Eu mal podia imaginar os dilemas gigantescos que enfrentaria em campos como espiritualidade, ideologia, ética, sexualidade, tudo dependente de uma desfavorável constelação familiar.

De maneira inevitável veio o futuro, a incerteza, a sensação de vácuo. Inevitavelmente, tive que enfrentar cada "não" e buscar meu espaço no mundo; encarar humilhações, brigar por poder, apostar que estava certo, quando as pessoas em volta diziam o quê e o quanto cabia a mim. Agora, inevitavelmente, está vindo a maturidade e, em algum momento, “a indesejada das gentes”, no dizer de Bandeira.

Ainda assim, a comemoração da bem-sucedida aventura da lua não me trouxe melancolia nem saudosismo. Gostei apenas de lembrar daqueles tempos, e de sentir que os três astronautas da missão ainda são meus heróis - eu que já tirei do panteão uma dezena deles e me descobri um iconoclasta à beira do abismo nietzschiano.

Parece-me que destaco os tripulantes da Apolo 11 de toda a porcaria já produzida pelos Estados Unidos e creio, de verdade, no pequeno passo para homem, no grande passo para a humanidade. De alguma forma, tendo a acreditar que eles foram lá “em paz” por todos nós.

As alturas do ar, no entanto, nunca me fizeram muito bem. Só o desejo de conhecer a Europa, e os próprios Estados Unidos, me levaram a circular por aí, a oito mil pés. Como Borges, considero que ir até a padaria já é uma viagem espacial. E não me importo em me contentar com isso. Entre meu apartamento e a Pão Dourado, ou a Santo Antônio, viajo um bocado.

domingo, 26 de julho de 2009

Estranhando a estranheza




Uma interessante resenha de Luis Fernando Veríssimo (abaixo) põe em contraste os mitos de Édipo e Jesus, mas mantem no ar a estranheza do estudioso Kalman Kaplan sobre a opção de Freud pelo mito grego, uma vez que o mito judaico-cristão estaria mais perto culturalmente do pai da Psicanálise.

Nós é que poderíamos estranhar a estranheza de Kaplan. Foi o destemor de Freud e sua ânsia pela verdade que o levaram a preferir o mito grego - se é que ele chegou a ficar dividido entre duas alternativas. Édipo oferece uma oportunidade de decifração e aproximação da verdade, ao invés de induzir o homem a uma perspectiva de salvação no plano metafísico que o impede de enfrentar seu destino nesta terra.


A crônica do Veríssimo publicada no site do Globo Online:

"Isaac e Edipo

Kalman J. Kaplan ensina nas universidades americanas de Wayne State e Illinois. Tem escrito sobre paralelos bíblicos para os mitos gregos e publicou uma comparação das histórias de Isaac e Édipo, duas versões para o drama familiar que, segundo a ortodoxia freudiana, está na origem da civilização e das suas neuroses. Isaac era o filho amado que Deus mandou Abraão imolar, Édipo o filho enjeitado condenado cumprir a profecia feita a seu pai de que um filho o mataria.
São duas figuras igualmente sacrificiais e expiatórias, e Kaplan estranha que Freud, mesmo sendo um judeu secular, não tenha preferido o exemplo bíblico ao grego para a sua tese sobre o conflito mais antigo da humanidade.

O que diferencia Isaac de Édipo é a natureza do sacrifício e a consequência da expiação de cada um. Deus poupa Isaac da imolação e pai e filho chegam a um acordo que, no fim, é o acordo inaugural do judaísmo. Os terrores do filho diante do pai são atenuados pela sua ritualização - como a circuncisão, que é uma castração simbólica - e o terror do pai diante do filho é transferido: a vinda do Messias, o filho que sustará ele mesmo a faca imoladora e desafiará o pai, fica para um futuro indefinido.

Já Édipo cumpre a sua danação. Mata o pai, ganha as glórias passageiras do reino de Tebas e da cama da mãe, mas é derrotado pelo remorso. Sucumbe ao destino reincidente de todo homem e inaugura não uma religião mas um complexo.

O Jesus das escrituras tem muitos precedentes em mitos da antiguidade, heróis expiatórios de outras culturas cujo martírio precede a ressurreição e voltam dos seus abismos e das suas provações como líderes ou deuses A especulação, hoje disputada, de Freud era que todos os mitos de redenção tinham origem na revolta dos filhos rebeldes contra o pai tirano, nas hordas primitivas.

Os filhos matavam e comiam o pai e aplacavam o remorso, o medo de serem literalmente comidos por dentro em retribuição, designando um dos seus como o culpado, sacralizando o crime e o criminoso e imolando o irmão/herói numa oferenda ao pai vingativo. Os mitos judaicos e os mitos gregos substituiam o monomito primevo de formas diversas, mesmo que os dois mitos fossem essencialmente os mesmos.

A história de Isaac é um mito de conciliação, a de Édipo um mito de recorrência trágica. As duas buscam a superação do conflito pai x filhos, a de Isaac pela integração sob os olhos de Jeová - nas palavras do profeta Malaquias, “e converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição” - a de Édipo pela resignação aos ciclos da condição humana, inegociáveis, pelo menos até que venha a psicanálise.
Já a tradição messiânica dá no Cristo, cujo triunfo histórico se deve ao seu ineditismo. No mito cristão o filho confronta o pai, mas filho e pai são a mesma coisa. O pai não mata o filho, o filho é imolado em oferenda a si mesmo. E é a carne do irmão/herói, não a do pai, que os irmãos comem, simbolicamente, na eucaristia, subvertendo o rito primevo enquanto o repetem.
E o mito cristão não é cíclico. Ele rompe a reincidência protelatória do mito judaico e a dos eternos retornos do mito grego. Seu herói venceu, expiou a culpa coletiva transformando-se por nós no seu próprio pai sem precisar matá-lo, e em vez de um acordo como o de Isaac com Abrahão com a benção de Jeová ou a submissão a um destino trágico como a de Édipo, trouxe uma novidade que nenhum mito, antes, oferecera: a salvação."

segunda-feira, 20 de julho de 2009

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Vamos temperar


Diretor da minissérie Capitu, que a Globo passou recentemente, Luis Fernando Carvalho tem razão quando diz que Machado de Assis é empurrado goela abaixo dos estudantes (ver entrevista no endereço abaixo). Deveria haver uma criteriosa exegese para que os alunos entendessem realmente o que estão lendo e a importância do velho bruxo.


Mas o que o mesmo LFC fez foi, a título de atualizar Machado, esculhambar o negócio, de tal modo que não se sabia mais o que era Dom Casmurro e o que não era. Ficou pós-moderno demais, até para quem conhece a obra do escritor. Gerou confusão e não compreensão.


Enquanto isso, a Globo se safou mais uma vez criando o álibi de que aposta em cultura e educação, quando na verdade entope a audiência com entretenimento fuleiro e deformador (Faustão , por exemplo); jornalismo manipulado; e pornografia light (Big Brother).


Entrevista de LFC ao Megazine:
Artigos sobre Machado:

terça-feira, 7 de julho de 2009

A morte da canção


O músico, ensaísta e professor José Miguel Wisnik liderou, na noite de terça-feira passada, ao lado do crítico e também músico Arthur Nestrovski, um interessante debate sobre o estado atual da canção como forma de arte e referência cultural (ver mais abaixo). "A canção morreu?" é a pergunta que muitos tem se feito.


Uma das respostas a esse tipo de indagação está nas imagens do vídeo mencionado pelo Wisnik: Gil cantando de roupão no quarto do hotel, enquanto, atrás dele, cenas de telejornais e documentários vão pontuando os versos, até que uma sincronicidade ainda mais aguda, um tipo de poesia fatídica, provoca um encontro misteriosamente poderoso entre o que diz a letra e o que a TV mostra.


Bom, mas a resposta é que o vir-a-ser põe tudo em andamento e fora do nosso controle. Está além de bem e mal, embora sempre traga o mal. E é por esta razão que Nietzsche foi o galo que cantou anunciando a pós-modernidade, a falta de centro, ou os múltiplos centros, a fragmentação, a desordem, o espírito dionisíaco espalhando seu vinho desagregador para espanto de Apolo.


A garotada de pais inteligentes e bem informados geralmente gosta de Beatles - até porque o que eles fizeram durante a carreira da banda foi música para crianças, no melhor sentido. Tudo morreu e nada morreu. A canção do Gil explica de maneira involuntária o sentido das ideias dos dois pensadores. Algo passa e algo fica. Assim como nós passaremos e outros virão para ficar um tempo.


Então eu não tenho medo da morte da canção, quando (e se) estiver morta. Mas sinto medo porque vejo a canção (e tudo o que implica essa morte, inclusive boa parte da minha fundação cultural e intelectual) morrendo. É como se eu próprio estivesse morrendo.




Abaixo o debate:


"Canto para quem?

José Miguel Wisnik questiona o "fim da canção", mas diz que gênero perdeu atenção e centralidade no país

Folha de S. Paulo - 6/7/2009


MARCOS AUGUSTO GONÇALVES

DA REPORTAGEM LOCAL

"O título é uma pista falsa, uma provocação.


Quem acreditar em seu sentido aparente corre o risco de levar um drible", avisou o músico, ensaísta e professor José Miguel Wisnik na noite de terça-feira passada ao abrir, ao lado do crítico e também músico Arthur Nestrovski, a sessão de encerramento de um ciclo de "aulas-shows" sobre música popular brasileira. O título ardiloso ao qual se referia Wisnik é "O fim da canção".


Embora já não fosse propriamente novo, o tema do fim da canção atraiu atenções e causou certo frisson com a publicação de uma entrevista de Chico Buarque a Fernando de Barros e Silva, na Folha, em dezembro de 2004, na qual o compositor considerava a possibilidade de o gênero a que se dedica ser um fenômeno característico do século passado.


Nessa linha, a ideia do fim da canção se inscreveria num contexto de esgotamento formal e de deslocamento de sua função social, num cenário em que se modificam parâmetros técnicos, culturais e ideológicos. Não por acaso, o enunciado ecoa outros análogos, como "o fim da pintura" ou o mais amplo e polêmico "fim da história", de Francis Fukuyama.

A canção que está no centro do debate não é uma canção qualquer, mas aquela, na definição de Wisnik, "sofisticada melódica e harmonicamente, com letras densas e polissêmicas, intimamente entranhadas com a música, sílaba por sílaba, capaz de atingir e interessar grandes públicos, atravessar diferenças sociais, irradiando lirismo e crítica social".

Para o professor e crítico Lorenzo Mammì, "em geral, toda arte, quando chega a um grau determinado de maturação, começa a se interrogar sobre sua própria morte".
Ele observa que "o tema da morte da arte existe desde o Renascimento (após Michelangelo não restaria mais nada a fazer) e é central na arte moderna, desde Hegel". Mas lembra, para evitar o drible: "É uma estratégia expressiva, nunca uma morte real: significa que cada obra se coloca no limite, tensiona a tradição até um ponto extremo."

Wisnik argumenta que, embora o lugar ocupado pela canção brasileira no século passado e o tipo de atenção concentrada que ela conquistou tenham se dissipado, isso não atesta o desaparecimento ou o mero empobrecimento da canção enquanto tal.

"É uma visão simplificada, porque esses mesmos não veem a canção, quando ela está na frente do nariz. "Não Tenho Medo da Morte", de Gilberto Gil, lançada no ano passado, mais bela ainda no YouTube, com ele cantando sozinho num quarto, é uma límpida afirmação de que a canção universal está viva", diz. Mas ao mesmo tempo -e paradoxalmente- "o fato de que quase ninguém a reconheça é um sinal de que a canção, tal como a conhecemos, acabou".

Em 2007, no ensaio "O Sonho dos Outros", publicado em "Lendo Música" (Publifolha), Mammì referia-se a uma declaração do artista norte-americano Robert Smithson, prevendo, nos anos 1960, que as redes de signos da cultura contemporânea chegariam a uma densidade tal "que formariam uma casca lisa e uniforme, sobre a qual seria possível correr livremente em todas as direções, como num deserto incontaminado".

Seria o caso da canção brasileira, cujo cânone, em seu entendimento, fecha-se num arco que vai de Ernesto Nazareth a Chico e Caetano.
Sobre a superfície sólida desse núcleo acabado poder-se-ia, agora, "correr à vontade" e já não haveria distâncias, "porque, descontadas as diferenças de gosto e de qualidade, não há mais direções."

O que teríamos, então, na cena contemporânea, como decorrência da "posse plena" do código da canção? Já de início uma produção que poderia ser chamada, sem viés negativo, de maneirista, na tradição do cânone. Além dela, um tipo de música que nasce nas franjas do pop, com o impacto do rap e da eletrônica, que se inclinaria, segundo Wisnik, "a uma linguagem menos travada entre música e letra, mais fluida, mais nebulosa, cheia de interstícios instrumentais ou sonoridades buscadas, como se quisesse não a atenção concentrada da tradição que veio da bossa nova e do tropicalismo mas a atenção flutuante que se ouve nos discos de Los Hermanos".
Por fim, permaneceria viva a tentativa de levar a canção ao paroxismo -"as últimas canções de Chico e Caetano me parecem ser um exemplo disso", diz Mammì.

Mas, para Wisnik, o mesmo ambiente que torna invisível -ou inaudível- a canção de Gil por ele citada não confere mais a Chico e Caetano o crédito de antes. "Não me refiro ao crédito da celebridade, que eles recebem em cotas de adulação, polêmica ou escândalo, mas ao do artista vivo", diz.

Em relação a Chico, "que se protege sabiamente da entropia reinante", parece mais fácil "não ouvi-lo no presente, mas no passado, onde ele soa mais palatável". Já sobre Caetano, "que se lança atiradamente por temperamento e que se confunde com a entropia reinante", parece mais fácil para muitos apenas "vê-lo como um narcisista frívolo".

Seja como for, é de perguntar se esse tipo de canção não estaria mesmo condenado a se tornar objeto de culto em círculos restritos, num fenômeno talvez semelhante ao que ocorre com a poesia. Lorenzo Mammì responde:

"Nas décadas de 1960 e 70, a vida foi ritmada por canções: eram objetos de consumo, mas também tinham uma importância cultural nunca alcançada antes, nem depois. Essa fase acabou, não apenas no Brasil, mas no mundo: não há novos Chicos ou Caetanos, mas também não há novos Bob Dylan ou John Lennon. Quem compõe canções, hoje, ou faz apenas entretenimento, sem outras pretensões, ou explora um patrimônio consolidado, trabalhando de certa maneira na forma da variação ou do comentário. Cada canção remete a uma quantidade de outras canções. É nesse sentido que a canção atual se aproxima da poesia: não há mais canção ingênua, como não há, já há muito tempo, poesia ingênua."